Sáb 15 Set 2007
Juridiquês
Publicado por Rodrigo Faustini sob Reclamações , Provocações , Cotidiano , Opinião , Sociedade , Discussões , Críticas
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Tradução: “O estupro aconteceu sob violência física ou sob ameaça grave?” © Ilustração: Klebs Junior |
Eminentes e Eméritos” leitores, “perante Vossas Excelências, Doutos Julgadores“, pergunto-lhes: antes que “a sentença transitasse em julgado”, o “excelso pretório” tomou conhecimento de que o “cônjuge supérstite” deixou à sua “cônjuge virago” uma “cártula chéquica” antes de “ir à óbito”, embora vivesse de “espórtula”, tanto que era notória sua “cacosmia”? Traduzindo: antes que “a decisão do juiz não pudesse mais ser contestada”, o “tribunal superior” soube que o “viúvo” deixou à sua “esposa” um “cheque” antes de “morrer”, embora “dependesse de donativos para viver” e “morasse em um ambiente miserável”)? Bem, quem já teve a oportunidade de tentar interpretar um documento jurídico (petições, liminares, apelações, acórdãos, despachos, ofícios, pareceres, sentenças etc.) ou deu muitas risadas ou se sentiu a pessoa mais ignorante do mundo (e que também de nada valeram todas aquelas excelentes notas em gramática na escola…). O “juridiquês” impera na documentação e literatura jurídicas. A pergunta acima, que utilizei como exemplo, poderia muito bem ter sido retirada de algum processo judicial e traz consigo o traço mais nefasto do “juridiquês”: pôr as palavras contra sua função essencial - a comunicação. Por que é assim? Será um grande complô contra o povo leigo, obrigando-o a recorrer a advogados “bilíngües” para conseguir entender e ser entendido em um simples “tribunal de pequenas causas“? Exibicionismo? Dogmatismo lingüístico? Falta de coragem de se quebrar um paradigma secular e ultrapassado? Manter erguida mais uma ponte entre a Justiça e a sociedade? Prefiro passar a palavra para quem realmente entende do assunto:
Ademais, entendo que é sinal de atraso e subdesenvolvimento mental a manutenção desse dialeto sofisticado e pretensioso que se utiliza nos meios jurídicos, já chamado “juridiquês”, uma linguagem afetada, empolada, impenetrável, não raro ridícula, dos que supõem que utilizar expressões incomuns, exóticas, é sinal de cultura ou de sabedoria. O “juridiquês”, infelizmente, só tem mostrado eficiência e grande utilidade na perversa e estúpida missão de afastar o povo do Direito, de desviar a justiça do cidadão.”
(Texto extraído do artigo “Lei de Introdução”, de autoria de Zeno Veloso, Jurista - publicado em “O Liberal”, edição de 18/06/2005).

Estimulada por essa “nova velha onda” desinterrrada pelo atual Papa Bento 16 (sim, 16, pois algarismos romanos também são um retrocesso “algarísmico-temporal”), na qual as missas devem ser rezadas em latim (o que, a meu ver, por analogia, também apenas servirá para afastar ainda mais os fiéis da Igreja Católica), quem sabe um dia a Justiça (que dizem que é cega, mas fala latim muito bem…) também não passará a adotar integralmente esta língua emplumada e nobre - mas morta - como idioma oficial de suas intermináveis pilhas de documentos processuais (tornando-as, em definitivo, verdadeiras Torres de Babel de papel)?

Não me interpretem mal:
O que julgo - e condeno - é a utilização tão exagerada e afrontosa de termos técnicos e de arcaísmos (ou seja, palavras em desuso) de nosso próprio idioma e de uma língua morta há seculos em ambientes e situações onde não somente profissionais do Direito estejam presentes e participando (mesmo que passivamente ou somente como ouvintes) do processo de comunicação, especialmente perante uma nação com altíssimo índice de analfabetos e semi-analfabetos, em que até mesmo as camadas melhor alfabetizadas da população (de estudantes pré-universitários à especialistas pós-doutorados) lêem muito pouco em seu próprio idioma e, por conseqüência, o escrevem vergonhosamente muito mal! Nossa língua portuguesa precisa de um habeas corpus jurídico para democratizar a Justiça para o cidadão leigo - que não precisa passar pelo constrangimento de se sentir um ignorante medieval em pleno século 21 (ou devo escrever “Saeculu XXI“?) diante de tanta prolixidade e preciosismos linguísticos vestidos de gala! Segundo Paulo César de Carvalho, bacharel em Direito e mestre em Lingüística pela USP, em seu artigo publicado na edição nº 3 da revista “Discutindo Língua Portuguesa” (maio de 2006):
Quando se fala em agilizar a Justiça, deve-se pensar também em agilizar a linguagem adotada. Nessa perspectiva, evitar arcaísmos e preciosismos vocabulares é um fator de “economia processual”: um texto claro, objetivo, que vai direto ao centro da questão, é lido também com maior agilidade. […] Mesmo com toda a pompa, uma cadeia não fica melhor se designada por “ergástulo público”.”
- (Trecho pinçado de excelente artigo do blog do Dr. Aldo Corrêa de Lima)

Em resumo: romantismo é muito bonito e bem aplicável às artes e à nostalgia, mas não às salas dos tribunais, onde magistrados, advogados, vítimas e réus discutem a vida como ela é - e querem compreender e serem compreendidos em seu idioma natal (sem dependerem de “tradutores” de gravata). Aliás, vida esta que, de justa, tem muito pouca coisa…
Das palavras, as mais simples: das mais simples, a menor.”
(Winston Churchil - estadista e escritor)
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Junho 19th, 2008 at 10:36
Concordo com tudo que está escrito aqui. O último parágrafo sintetiza tudo o que eu penso: “Em resumo: romantismo é muito bonito e bem aplicável às artes e à nostalgia, mas não às salas dos tribunais, onde magistrados, advogados, vítimas e réus discutem a vida como ela é - e querem compreender e serem compreendidos em seu idioma natal (sem dependerem de “tradutores” de gravata). Aliás, vida esta que, de justa, tem muito pouca coisa…”
Junho 19th, 2008 at 10:50
Data venia Vsa. Excelência Sr. Faustini,
Venho por meio desta observar o tom irônico que o Senhor aliterou vossas idéias.
Rude, agressivo e descompensado com uma casta tão diferencianda da plebe geral.
Que o Senhor contenha seus testeminhos verbais contra os elegidos.
kkkkk!
Esta vai ser a resposta que vc vai ter de algum “tradutor de gravata”. Adorei este termo.
Excelente texto. Parabéns!
E ainda tem que acreditar que “a ninguém é dado o direito de desconhecer a lei”, é brincadeira!
Tenho certeza que as montanhas de processos que alimentam traças pelos fóruns afora no Brasil, estão diretamente ligadas a este vocabulário ridículo usado por pessoas frustradas e que querem se auto-afirmarem diferentes de nós outros.
E tenho dito!
Junho 19th, 2008 at 19:01
Brincadeira, é o famoso bacharelismo, pouco importa que a justiça seja feita ou não, o que importa é se mostrar superior, se o processo demorar vinte ou trinta anos e um cidadão honesto amargar uma injustiça, dane-se, nos anais ficará registrado a cultura do magistrado e não seu desapreço com o cidadão injustiçado.
Junho 20th, 2008 at 13:05
Diante de tudo que foi escrito acima, acredito que se não começar a ter mudanças de imediato, cada vez mais o povo brasileiro ficará no escuro.
O uso desses termos “diabólicos” tem que ter um freio, caso contrário, onde vamos parar?
Como vai ficar a nossa comunicação (de modo geral) daqui pra frente?
Se expressar para ser compreendido ou gerar dúvidas? Eis a questão!
Junho 24th, 2008 at 16:49
Para a garantia de sucesso não merecido, basta que se mantenha a ignorância do adversário e/ou prosélito!!!
“[…] Que direis desses todos, senão que eles também se mantêm na claridade do sol, mas de costas para o sol?
Vêem somente suas sombras, e suas sombras são suas leis.
E que é o sol para eles, senão um lançador de sombras?
E que é reconhecer as leis, senão curvar-se e delinear essas sombras sobre a terra?[…]”
(Gibran Khalil Gibran, do livro “O Profeta”, capítulo que fala das “Leis”)
Junho 24th, 2008 at 20:19
Excelente e divertido artigo ironizando com muita inteligência e senso de humor o linguajar jurídico, algaravia que muitas vezes beira o ridículo. Penso ter o autor escrito um dos melhores textos sobre o assunto, dos muitos que li. Recomendei com entusiasmo a muitos da minha lista de endereços.